Como ser professor por mais tempo?
Hoje, eu estava bem despreocupado na minha nova função. Como sempre fazendo o máximo para que a mesma seja bem executada e que eu preste o melhor serviço possível para a sociedade no geral. Quando de repente adentra no ambiente uma senhora, trajando farda escolar, de professora com a voz serena e bastante calma.
Ela entrou calada no ambiente, olhou-me por um certo tempo. Eu a cumprimentei dizendo-lhe: Bom dia! Ela esperou um pouco e respondeu: Bom.
Prontamente voltei a executar as minhas rotinas de trabalho. Comecei atendendo alguns alunos que estavam procurando volumes específicos para empréstimo, organizei alguns volumes em algumas prateleiras que foram mexidas pelos alunos em consulta e a senhora continuava a me acompanhar com os olhos. Sem me preocupar, percebi que ela tinha umas provas em mãos e utilizava o aparelho celular. Então ofereci a Internet da biblioteca para que ela pudesse acessar. Ela então agradeceu e começou a falar:
- Olá professor, o senhor se lembra de mim.
- Não senhora. Se a conheci em alguma formação, peço perdão. Porque, não me lembro.
- O senhor ensinou a minha filha e algumas colegas delas.
- Está certo, espero que estejam todas bem.
Para minha surpresa foi a resposta dela:
Eu quero lhe agradecer professor. Pois a minha filha terminou a faculdade e está se especializando na área de saúde, no atendimento clínico. E não foi só ela. Pois todos os alunos egressos daqui no ano que ela se formou, fizeram faculdade e estão bem empregados. O senhor não sabe, mas o senhor já tem ex-aluno que hoje está as vésperas de concluir um doutorado na Universidade de São Paulo. E eu só tenho a agradecer tudo que a escola fez por ela e em especial ao senhor que realmente fez de um tudo para que ela estudasse e se esforçasse.
Escutei atento a toda a fala da mãe de um ex-aluno, enquanto na minha menta rolava um filme em que eu estava em sala de aula na época em que a filha dela era aluna.
Aqueles foram os primeiros anos da escola. Eu e meus companheiros professores estávamos fazendo o máximo para fixar bons resultados e construir um bom nome para a escola. Isso não só no que se diz respeito a disciplina dos estudantes, mas principalmente no que se refere a indicativos de aprendizagem com avaliações externas e em resultados sólidos no ENEM. E assim todos da escola deram as mãos e lutamos muito para conseguir fazer a escola brilhar diante de tantas estrelas que já existiam na região.
Infelizmente quem hoje agradece, no passado bateu com a vara nesse professor. Naqueles anos em que atendi aos referidos ex-alunos, os quais são sucesso hoje, não se passavam duas semanas que eu não fosse chamado por um coordenador ou gestor para conversa. E a conversa era bem assim:
Olá professor, tudo bem? Sei que o senhor faz um excelente trabalho, domina o conteúdo e a disciplina em sala e é capaz de excelentes exposições orais sobre a matéria ensinada. Mas, temos um problema. É que as mães dos alunos de tal sala estão se queixando que o senhor passa exercícios de mais para os alunos. E algumas estão se queixando que o senhor não explica todos os exercícios. Hora se o senhor passar os exercícios é dever do senhor corrigir todos os exercícios. Se não for para corrigir o senhor não deveria passar. Dê uma aliviada na quantidade desses exercícios. E eu perguntava o que são muito exercícios, pois eu passava de 13-16 exercícios por quinzena? E não ouvia nada como resposta. Na semana imediatamente posterior eu recebia outra leva de pais. Professor os nossos filhos não estão entendo o que o senhor fala. E eu respondia: como não, falo em português, bem claro e não me aguço no vernáculo para nivelar minha fala a adolescente que não tem um grande vocabulário. Recebia eu as mesmas recomendações: Mude seu vocabulário! Na seguinte semana recebia mais alguns pais. E a queixa era bem mais enfática ao meu trabalho docente. Professor, o senhor é contratado? O senhor se formou aonde? O senhor tem especialização? E isso doe muito, pois na época eu já estava perto de completar o meu primeiro decênio de serviços prestados a educação de Pernambuco. E se seguiram por muitas semanas e meses de queixas e mais queixas infundadas. E eu tinha que demostrar que cada uma das queixas era infundada e não tinha motivo de existir. A não ser a dificuldade que os alunos tinham na disciplina de física, por ter pouca habilidade em matemática e na compreensão dos textos das questões e do próprio livro didático. E o bom é que isso foi sanado, visto que os referidos ex-alunos hoje estão vivendo o sucesso que uma boa escola e bons professores proporciona na vida das pessoas.
O interessante é que eu continuava dando aulas as turmas e nunca nenhum aluno me fez uma queixa, nem pedido especial. Os únicos pedidos eram para explicar uma ou outra questão mais uma vez ou esperar um pouco para apagar o quadro. E essa queixa de apagar o quadro foi diferente, pois eu já usava a lousa digital, comprada com recursos próprios para dar aulas melhores, naquela época. E passaram se os meses e os anos, e os alunos progrediam muito e rápido. Contudo sempre apareciam queixas, as mais diversas, e em especial após cada período de provas. Os pais reclamavam de tudo, da correção das provas, das questões das provas. Houve pai que disse alto e bom som que eu era a figura do demônio que estava atormentando a filha dele, a qual ele a criava na igreja. Houve pai que me ofereceu propina para fazer uma nova atividade para sua filha, houve pai tentando me difamar na escola e espalhar o seu ódio sobre mim para as demais turmas da escola, foi tão grave que até nome pejorativo, que ofendia a minha honra, eu recebi. Vivi isso um ano a cada vez, com o passar dos anos as queixas vazias iam diminuindo. E finalmente essa turma se formou e hoje recebo a gratidão de uma das mães daqueles ex-alunos.
Mudando o assunto, para ilustrar melhor minha fala, nesse ano recebi um pedido de um dos meus sobrinhos para corrigir algumas questões de matemática. Ele cursa o 6 Ano do ensino fundamental no Colégio Militar do Recife. Ao pré-adolescente foi entregue pelo professor uma lista de 125 questões com o prazo de quinze dias para serem solucionadas. E o professor indicou que só corrigiria algumas das questões se houvesse tempo para isso. Ao questionar minha cunhada sobre essa prática na escola, eu escutei: Lá é normal essa quantidade de questões e ninguém reclama não. Pois sabem que é uma escola de elite e os alunos têm que estudar, pois é uma das melhores escolas do Brasil.
Voltando a minha vida...
Tive tantos e tantos problemas com 15 questões!
Os problemas para mim apareceram com essas pressões, pois como está escrito na Lei Geral dos Gases, não se pode mexer na pressão, volume e temperatura de um gás sem ter consequências entre as variáveis. Na melhor das hipóteses o recipiente vai explodir. E foi o que aconteceu comigo.
Minha explosão foi que eu comecei a deixar de ser quem eu sou para agir de um modo diferente. Agressivo com as pessoas que eu amo, esquecia de tudo, informações novas e velhas, o branco era minha companhia e não conseguia dormir. Minha vida começou a virar uma caixa de problemas e qualquer pequena queixa já era o suficiente para me abalar profundamente. Isso prejudicou a minha vida e o meu fazer pedagógico de um modo intenso e destruidor.
Hoje eu tenho dificuldades para permanecer em sala de aula e fazer o que eu mais gostava de fazer, lecionar. Em sala tenho vários brancos, sou impaciente, tenho elevações de pressão arterial, pequenas tonturas e mais algumas dificuldades. Entre elas tenho dificuldade para me relacionar com as pessoas e sinto uma terrível angústia ao corrigir provas, em especial quando os alunos tiram notas baixa. Eu fico muito agoniado com a situação de corrigir provas em que os alunos tiram notas baixas e nesse momento sinto outra vez todos esses problemas, ocorrerem em ordem aleatória.
A grande pergunta: Você faria tudo outra vez?
Sinceramente: não.
Perdi minha saúde para fazer com que meus alunos tivessem sucesso. Isso não é legal, é um custo muito alto. Hoje o agradecimento daquela mãe que me criticou no passado, junto com as outras mães, não é o suficiente para pagar os custos de medicamentos que eu farei uso para toda minha vida.
A gratidão não resolve o problema de nenhum professor. Em especial a gratidão tardia, que essas pessoas por dor de consciência exprimem em algum momento da vida. Depois que tudo deu certo para todos, menos para o professor. A maioria dos alunos segue os caminhos da vida e mal se lembram do professor. E aqueles que se lembram muitas vezes com remoço de como agiram quando eram adolescentes e saudosos pelo zelo que o professor tinha por eles naquela época. E eles pensavam que o professor queria feri-los, nessa fase de preparação da vida deles.
Sou sincero em dizer a você que está ingressando na carreira agora. Você deve trabalhar como se estivesse no Colégio Militar, se você estiver no colégio militar. Pois hoje eu sei: “Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão, e aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” Evangelho de Matheus 7.6. E depois que você estiver despedaçado vai ser um ser humano cheio de remendos. Assim como o jarro quebrado que não consegue esconder os locais onde foi colado. E Mesmo assim vai ter que continuar vivendo por você e por sua família que o ama.
Visto que “Em todo trabalho há proveito; meras palavras, porém, levam à penúria”, Pv 20.13 Eu nunca me omiti de trabalhar. Sempre o faço de bom coração e buscando, hoje o melhor possível. E não sou muito atento a quem usa apenas meras palavras para encantar seus ouvintes. Hoje me farto da safra de cidadãos que já ajudei a formar, e me gabo do sucesso deles, como se meu fosse. Pois todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. E o tempo que acomoda cada coisa no lugar está a produzi, “frutos dignos de arrependimento” Mt 3.8 e eu estou aqui, seguindo a minha obra de servidor da educação, fazendo o melhor que posso, e infelizmente com alguns trincos que me limitam ao fazer o que gosto, mas fazendo o que é possível e ainda transformando vidas e levando luz aos demais.
Meu desabafo é porque creio que não adianta ser luz, se você não consegue iluminar o caminho dos demais. Agora, tento ser essa luz de uma forma diferente, de um modo que eu não seja machucado nesse percurso. Já sofri demais, estou adoecido e ferido. Também não digo que perdoei as pessoas que me ofenderam e que tentaram me destruir no meu caminho de trabalho. Eu apenas as esqueci, “pois eu me torno eternamento responsável por aquilo que cativo” (Pequeno Príncipe) e não quero cativar lembranças desses pais e alunos ruins. Porque “agente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar” (Pequeno Príncipe), e hoje eu só me deixo cativar por minha família, que é a energia vibrante que me faz trabalhar, sorrir e me emocionar todos os dias. Aprendi que “o essencial é invisível aos olhos” (Pequeno Príncipe) e que alunos são filhos dos outros, que tem responsabilidade com eles por toda uma vida e eu sou apenas um professor, e foi o tempo que dediquei a alunos e pais ruins que me adoeceu, e hoje eu tento escolher melhor a quem eu devo dedicar o meu tempo, evitando gastá-lo com pais ruins e alunos perversos.
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