Professor de Pernambuco



Meu querido professor, você está agora cruzando uma avenida muito perigosa e como toda avenida ela possui dois lados: esquerda e direita. Cada um desses lados oferecem vantagens e desvantagens. É impossível andar no meio, pois você será atropelado e consequentemente não existirá mais. Assim, insisto, que você tem que escolher por onde vai andar em todos os momentos de sua existência. Vamos pensar um pouco sobre os lados:

A direita, ah! direita… Esse lado é apaixonante, porque todas as promessas são tão especiais. Ele diz ser grande e conseguir aglutinar todas as forças e pessoas. É oferecida a vantagem de ser empresário, rico! E como empresário ser dono do próprio nariz, dos seus horários e ainda lhe dá poderes de Rei. Isso mesmo, o empresário pode dar ordens a todos na sua empresa que devem obedecê-las ou serão excluídos. É uma vida de felicidade, com grandes poderes de inferir na vontade dos outros, e sem contestação. Ora, esse caminho também mascara a existência do empregado. Esse fica camuflado diante das circunstâncias da produção. Muitas vezes é tido como um bem do empregador, sem ideias e sem carisma diante de uma vida sujeita a determinação de um terceiro. Além disso, aqui deste lado se caminha sob as bençãos de um fantasma. Eles o chamam de A Mão Invisível do Mercado. Essa mão, segundo esse lado, determina quanto se ganha, quanto se paga e o modo como se produz e distribui as bênçãos da produção. Tudo é culpa ou intenção dessa Mão invisível que constrói e destrói histórias e sonhos. Digo isso, porque para que alguém ganhe, tem que ter alguém que perca. A ótica desse lado é fazer com que as pessoas percam sua humanidade e trabalhem, trabalhem, até a completa exaustão ou desumanização. E isso já está acontecendo. Vejam: Hoje em dia, os japoneses trabalham tanto que estão perdendo a capacidade de se relacionar, a vida próxima a um outro ser humano é marcada pela indiferença e por uma vexatória ideia de que precisa bater mais as metas para ser melhor do que o outro. Mas, crescer as metas favorece a quem mesmo? Pobres japoneses daqui a alguns anos vão ficar velhos, e o que a empresa faz com equipamentos velhos? Troca, por uma peça mais nova. Essa é a lógica da Mão invisível do mercado. E depois de tudo transcorrido se morre, sem família, sem amigos, uma existência sem lógica. E esses mesmos preceitos às vezes querem implantar em todas as esferas da nossa sociedade. Vejamos que hoje há um governo que está buscando aproximar a Mão Invisível do Mercado ao serviço público. Com as mesmas lógicas e entendimento direito, que anula a existência do ser humano e transforma a pessoa em uma coisa, que facilmente é substituída e que deve viver a vida segundo esses preceitos dessa Mão Invisível até chegar ao fim, e esse fim é fácil de imaginar: O patrão em uma grande casa, cercado pela família amigos e empregados, todos orando e agradecendo o grande homem que foi. E o empregado, sozinho, em um pequeno quarto de um abrigo, onde ao seu lado não está ninguém, nem os ratos o acompanham e assim Deus o leva só, descalço das lembranças de uma vida que foi feita no trabalho e para o trabalho, segundo as regras da Mão Invisível do Mercado.

Ah! Quase esqueci da Esquerda. Alguns dizem que é o caminho dos bagunceiros, dos desordeiros. É isso, desordeiros. Creio que isso deve ser porque não dá poder a essa tal Mão invisível do Mercado. E quer, realmente, a desordem dessa lógica do Mercado e de sua Mão. É um lado que tem amplo acostamento, e quero dizer isso porque do lado esquerdo cabem todos os tipos de gente. É isso mesmo, cabem todos os tipos de gente. Mas, não cabem máquinas. Creio que é um lado mais aconchegante, onde se encontra diálogo. Isso mesmo, aqui se conversa e se diverge. Temos o dever de escutar o contraditório, tudo é fruto de uma conversação e dessa conversação é que se busca um entendimento. Esse entendimento, sempre deve levar em consideração a finitude do ser humano. Assim, pensamos que precisamos nos divertir, ter amigos, ter família e a ela se dedicar. Fazendo dela o alicerce em que assentamos a nossa existência. Abrimos mão de muita coisa, entre essas coisas está o dinheiro. É isso mesmo, trabalhamos o suficiente para dar uma vida digna a nossa família! Temos filhos! É isso mesmo, fazemos filhos e os temos com todo o amor e carinho. E usamos nosso tempo com eles, e vemos que o brilho daqueles olhos e o sorriso daquelas pequeninas boquinhas não tem preço. Inapagável é o sorriso da minha filha! E assim caminhamos com o coração na mão, e o seguramos todos juntos para que ninguém largue ninguém e vamos à luta. E agora quero falar de nossa luta: Queremos passar mais tempo com nossa família, queremos curtir a presença de nossos amigos, queremos ter acesso a todo tipo de tecnologia que está aí, queremos ser escutados e levados em consideração. E para tudo isso precisamos ter um salário digno e um local de trabalho confortável. Amamos trabalhar! Mas, queremos que o local onde trabalhamos tenha condições de nos manter com saúde física e mental. E queremos um salário digno para que possamos ser introduzidos nesse mundo, com acesso a todo tipo de privilégio. Não queremos só trabalhar e o fruto do nosso trabalho ser desfrutado apenas pelo patrão. Não queremos ver o sofrimento nos olhos de outros seres humanos que estão excluídos do sistema e vagam pelas ruas mendigando nossa atenção e nossos trocados, se humilhando com olhos cansados e cheirando mal, arrastando o sofrimento e mostrando como o Mão invisível do mercado pode ser má, sustentando um shopping para uns e atirando outros na vala, junto ao lixo e as sobras.

Minha profissão, professor, é um trabalho que vê na escola o abismo social sendo formado. Podemos dizer que estamos vivendo a hora da sentença de muitos jovens. O sistema indica qual é a escola pública que ensina e qual é a escola que não ensina. Quais são os estudantes que serão incluídos no sistema e quais estudante serão excluídos e jogados fora. No meu trabalho tento concorrer com todos os tipos de mídia para poder ensinar, me reinvento com meu celular, internet e demais recursos que consigo usar e tentar levar para os alunos. Isso porque vejo em cada olhar de cada um deles a esperança. Lá, no fundo dos olhos dos jovens tem uma chama de esperança que brilha e que irradia luz para a alma de cada professor. E assim nos dedicamos para executar esse ofício, que é antigo e novo ao mesmo tempo, sofrendo constantemente com reinvenções e capacitações. Além de ser uma profissão que parece o vinho, que ao passar do tempo fica mais experiente, gostoso, e encorpado com sabedoria que só o tempo dá.

Agora vamos falar de dinheiro. Vamos lembrar que para que estejamos dentro da sociedade, precisamos ter dinheiro para ter o acesso às benesses que a sociedade oferece para todos. Além do mais, precisamos ter acesso ao que os jovens gostam (livros, equipamentos, audiovisual e etc), assim para exercermos bem nossa profissão precisamos do dinheiro para isso. E quero somar que também precisamos dele para manter a nossa família com dignidade. Isso mesmo, dignidade, que deve ser ofertada obrigatoriamente para todo o ser humano. E faço uma ressalva pessoal: Em especial para os professores que ajudam a construir o alicerce da sociedade. Não podemos construir uma sociedade onde a exclusão é iniciada na escola e focada na profissão do professor. É função da escola ser o local de abertura, diálogo, pluralidade de ideias, ensino, aprendizagem e acesso ao mundo. Digo isso porque o primeiro contato da criança com o mundo em que nasceu se dá na escola. A criança sai de casa pela primeira vez, perde o contato com os pais e entra na escola. E lá tem o primeiro contato com o mundo exterior, começa a formar relacionamentos com as pessoas, têm a primeira experiência com um terceiro que é autoridade, e esse é o professor. Que imerso no mundo daqueles jovens, começa a construir o que esperamos de uma sociedade e neste intercurso vai letrando, ensinando a linguagem, a matemática e a ciência. E isso com uma linguagem própria, carregada de amor e certeza. E assim é que o professor constrói essa sociedade. E por isso merece ter o reconhecimento financeiro capaz de dá substrato para que ele tenha família, viva com dignidade e exerça a sua profissão com dignidade. É o salário que dá condições do professor atender melhor os alunos. Não quero dizer que o professor trabalha só por dinheiro, não é isso! Mas, creio que o meu argumento foi suficientemente robusto para indicar que o salário do professor é fundamental para o exercício do magistério, e que a carreira de professor deve ser valorizada, pois é alicerce da sociedade e é uma das que mais adoece trabalhadores no Brasil.

Um governo que milita à direita, nunca estará pensando no seu povo. À direita, o acostamento é curso, e os grandes empresários estão lá, ocupando muito espaço. Mesmo, ostentando o mérito de suas conquistas, se fazendo exemplo para os demais, e escondendo que tudo que possuem advém dos trabalhadores do chão da fábrica, do chão da escola e do chão da terra. Somos nós que construímos. Pense que cada rico é sustentado por uma multidão de pobre, e cada governo é sustentado por uma multidão que é o povo. Agora quero ser bem enfático, sem o povo, o governo tende a cair. E o povo quer ver a educação valorizada, pois o povo sabe que a fuga da pobreza é pela escola e quem faz escola é professor, e professor bem pago e valorizado na carreira faz a melhor educação do Brasil.


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