O Pior Lugar do Mundo

O Pior Lugar do Mundo


Olá, você pode querer saber quem eu sou. Mas, por enquanto você só precisa saber que eu contarei um ponto entre muitos que existe na história de Kaká. Esse ponto fala sobre o pior lugar do mundo. É deste modo que ela se refere ao lugar no qual ela passa mais tempo acordada na sua jovem vida. E entre todos os pontos de referência que existem para se observar, Kaká só observa daquele ponto que foi traçado por uma reta cortante entre a horizontal de sua vida e uma vertical por ela imaginada em qualquer lugar do mundo, e esse ponto está sempre à sua esquerda. Lado do qual ela menos gosta.

Kaká tem 16 anos feitos a aproximadamente 15 dias, e seus pais sempre a obrigam a ir à escola regularmente, é o que se faz com pessoas dessa idade. Gostando da escola ou não, por que é o certo a se fazer, pelo menos é o que os pais pensam sobre a rotina diária de Kaká. Assim sendo posso te contar um pouco sobre Kaká, ela tem o rosto marcado por algumas espinhas, as quais ela bem disfarça com um pouco de maquiagem, e um leve defeito no pé, chamado polidactilia, que nem dá para perceber. Porém ela sempre usar sapatos fechados e nunca os retira em nenhuma circunstância. E ela está naquela fase da vida que acha ter muitos defeitos, tipo: muita perna, pouco busto, dedos e braços enormes, ela se acha um puro show de Heavy Metal cheio de índios querendo dançar suas danças tribais. Assim Kaká mantém sua rotina de todos os dias, ir à escola.

Na escola Kaká sempre está atenta. Se lembra dos dois segmentos de reta? Ela nunca esquece! Deixa eu te contar: Ao entrar no ônibus ela se senta numa cadeira, não muito a frente e não muito atrás e começa a pensar: “muito braço, muita perna e pouco busto, oblíquo! Tem pessoas me olhando”. Saiu do ônibus e entrou na escola, ela pensa: “muita espinha, muita maquiagem, oblíquo! Pessoas me olhando”. E quando chega na sala de aula ela dá uma leve olhada no horário e diz: “física, química e história, oblíquo! Não vou entender nada hoje”. Ao começar a primeira aula o professor faz a chamada e começa a explanar o assunto e ela diz: “Ele está olhando para mim, não estou entendendo, oblíquo! Ele vai me reprovar”. Na segunda aula o professor de química vai tomar uma lição passada a dias atrás e ela pensa “Fiz errado, está incompleto, oblíquo! Ele vai tirar um ponto meu”. A terceira aula é a aula de história, e assim a professora chega, dá um largo sorriso e rapidamente entra na sala e começa narrando os fatos que levaram a expansão do Império Romano sobre o Mediterrâneo, e Kaká vê a professora empolgada e a acompanha com os olhos e os esbugalha quando a professora vai em sua direção e pensa: “Ela agora vai me perguntar, ela está se aproximando, oblíquo! Vou passar vergonha agora”. E o tempo vai passando e as coisas acontecendo de um modo sempre rotineiro, e Kaká encontra um ponto oblíquo em cada um de seus professores e colegas de escola. Saindo distribuindo pontos oblíquos por todos os lugares que passa e por tudo que vê. Assim a Kaká escolheu como o pior lugar do mundo, o lugar mais oblíquo do mundo, e esse lugar é a escola.

Todos os dias, sem ânimo, Kaká é arremessada de casa para o pior lugar do mundo e nele tem que permanecer por horas intermináveis. É como se todos os dias tivesse um ônibus que estava fazendo o seu cortejo fúnebre, e seu enterro em consequência. Pois em tudo via o mundo oblíquo e assim pensava que sempre havia duas ou mais pessoas a observando, e a julgar a pessoa dela. Mas, como ela também se achava dinâmica e arrojada ela começava a se modificar, assim mudava as roupas para disfarçar aquilo que ela acha que é defeito. Se pintava para disfarçar as espinhas e virou expert em fugir dos professores como mil e uma desculpas e mentirinhas. Fazia isso como um vampiro que foge da luz do sol, sempre sorrateira. Seu caderno era sempre escrito, tinha lá qualquer coisa que se podia chamar de resposta. Mas, para bem disfarçar, de todas as atividades Kaká participa, e lutava muito para vencer, pois sabia que era sempre bom ter um ponto a mais na escola. Assim ela virou uma caça pontos. Coisa típica de quem vive em um mundo oblíquo. Nesse mundo não havia nada mais lógico do que caçar ponto, não é? E o pior lugar do mundo era habitável, pois assim o tempo passava e Kaká também passava, e dava para ter relances de felicidade escondidos no oblíquo do mundo. E vez por outra desobedecer umas regrinhas, adoçava a jornada e melhorava tudo, pois dava até para namorar.

A colega de Kaká, meio que a mais próxima era Bella. Essa garota diferentemente pensava que esse mundo pintado na escola era todo paralelo. Bella via que nada de ruim se encontrava na escola e não tinha ponto de vista nenhum que a ofendesse ou que a fizesse sucumbir. Assim vou descrever um pouco a figura da Bella. Ela era uma menina baixa, com cabelo encaracolado, daquelas meninas bem simplesinhas, que não tinha nada de tão belo que chamasse a atenção a não ser um defeito na boca, isso porque tivera na primeira infância uma coisa chamada de lábio leporino. O que muito marcou a sua face. Isso fazia com que de início as pessoas ficassem olhando fixamente para seu rosto de um modo deselegante. Porém ela tirava isso de boa, sem grandes alardes, contava a sua história e seguia sua vida. Penso que era uma vida difícil de ser seguida, pois as pessoas a apontavam na escola, e quando chegava no começo do ano era muito complicado, porque todos os novatos comentavam sobre ela. Contudo isso nunca a impediu de usar um batom e sorrir. Pois quando as pessoas apontavam em sua direção ela olhava para sua esquerda e depois para a sua direita. Ela procurava qual era a novidade que estavam apontando, pois ela que nasceu daquele jeito sempre se sentiu normal. E quando algum aluno fazia algum comentário maldoso ela simplesmente olhava, sorria e perguntava: “Sua vida é tão sem graça que você quer achar graça na minha?” Quando ela dizia isso parecia uma facada bem no peito dos maliciosos.

No mundo paralelo de Bella, tudo funcionava de baixo para cima. Com as pessoas, ela dizia que chegou na escola sem nenhum amigo, e segundo a reta da amizade ela conseguiu um, depois o segundo, mais um tempinho o terceiro e assim seguiu essa reta paralela. Com o relacionamento com os professores ela dizia que estaria sempre com uma reta paralela na horizontal, todos são iguais e assim ela foi conseguindo admiração e atenção de todos. E seu comportamento tão linear indicava que ela fazia todas as atividades propostas pelos professores. Seguindo retas paralelas ela sempre começava com a primeira questão mais simples, e como uma reta paralela ía para a segunda questão como quem subia uma escada de dificuldades até as questões mais complicadas. Como era ela quem fazia, Bella nunca tinha problemas nas correções, pois ela via as questões e percebia onde o seu raciocínio se perdia nas atividades, e como ela vive um mundo pensando em retas paralelas, ela simplesmente corrigia o seu rumo nos exercícios, e estava de volta a reta. Como uma reta paralela não tem cruzamento, nunca tinha um ponto final, e Bella sempre sorria à adversidade e seguia seu caminho em linha reta, paralela. Assim fazia todos os exercícios, atividades e sem se esforçar muito, tinha sempre ótimas notas. É como se o caminho reto e paralelo fosse ascendente, e no caso de Bella, era. Ela sempre passava de ano, participava de tudo na escola, pois somava amigos em uma linha reta, paralela. E nessa soma de amigos estava eu e Kaká.

Bom, agora posso te contar quem eu sou. Meu nome é Beto, eu sou um dos alunos mais tímidos da escola, e não sei como entrei na linha de amigos de Bella. Mas, entrei e assisto a todas as façanhas daquela garota que não é a mais bonita da escola, mas é extremamente vencedora. Pois estuda e sempre se dá bem, e agora está dizendo na escola que vai passar no curso de medicina de primeira. E eu particularmente estou acreditando nela, pois tudo para ela está em linha reta, paralela e impulsionada para frente, buscando sempre o que falta para ela alcançar seus objetivos. E como nós somos CDFs da escola, ela sempre está nos grupos de estudo, ela também é uma CDF, porém não tem nenhuma timidez. Deste modo eu a questionei sobre o seu modo extrovertido. Ela me disse que não poderia se dar ao luxo de ser tímida, pois sabia que não era tão bonita e para ter a companhia dos meninos e paquerar e até namorar ela precisava ser mais simpática, boa gente e companheira, pois isso fazia a diferença em sua vida. Aquecendo o coração dela com amizade e o amor de um boy, que era meu primo Nando. E eu o invejo por estar namorando com ela, pois ele agora tem boas notas e um super alta astral. Ela também contou que não tinha tempo e nem disposição para ficar prestando atenção no que as pessoas falavam dela, sobre os seus lábios, pois já foi muito pior e se ela vivesse no quadradinho que os outros criam para ela. Ela se sufocaria e morreria asfixiada pela vontade de quem não importa na vida dela.

Assim, para contar mais sobre mim eu sou o namorada da Kaká. Comecei a namorar com ela, pois ela vinha sempre me pedir o caderno e eu emprestava. E como ela era muito linda, gata de mais e eu tímido demais, rolou. No nosso namoro, conversamos pouco na escola, e beijávamos muito, é claro. Nessas conversas foi que ela me contou sobre o seu problema no pé, que ninguém na escola ligava, pois não dava para perceber nem quando ela estava descalça. Kaká falava mal de todos os professores, assunto nenhum prestava e nada era legal. Tudo sempre oblíquo. Então comecei a ser o seu psicólogo particular. Conversamos bastante para ela melhorar e deixar  dessa neura de que as pessoas estavam olhando para ela. Tanto que chegou uma hora que eu nem aguentava mais aquela conversa. Ela via um defeito em tudo e me todos na escola, tanto que eu apelidei a escola de “O Pior Lugar do Mundo.” E isso era a opinião de Kaká, minha namorada. Ela era linda, mas me contagiava com um mal humor e sempre notícias negativas. Até diminuí minhas notas, pois a escutava tanto no começo do namoro que fiquei com raiva dos professores e de tudo mais na escola. Até que um dia eu estava caminhando pela escola, passando próximo a sala da diretoria e quando a vi ao longe ela estava indo para um canto meio escondido na escola. Era aquele canto que a gente ia quando estava querendo namorar de um modo mais quente na escola e logo depois eu vi o JC entrar lá também. Ele era o cara mais bonito e o mais maloqueiro de toda a escola. Então eu segui o meu caminho para a sala de aula e comecei a pensar comigo mesmo: Eu estou namorando com uma gata, que na realidade quer o meu caderno, me usa como psicólogo e está tirando o meu foco da escola, a transformando no “Pior Lugar do Mundo.”, fazendo com que eu me perca no caminho reto e paralelo que tracei para minha vida, pois agora vejo que ela fazia e faz tanta coisa errada na escola e que a minha paixão me cegou.

Terminei o meu namoro com Kaká, fui atrás de um novo caminho. Agora você sabe quem eu sou. Eu sou realmente o cara arrependido ou melhor eu sou o Beto arrependido. Enquanto eu estava escolhendo os caminhos pela falsa beleza e pelo modo fácil, as pessoas estudavam e cresciam. E eu estava me diminuindo e caindo num poço de prejuízos para a minha vida. Ficava com raiva da escola e dos professores e na verdade eu deveria ter gasto o meu tempo para tirar o máximo de conhecimento dos meus mestres e me dedicar, pois o meu caminho eu preciso construir com segurança e conhecimento, sem fila, sem caderno emprestado e sem traição. Tudo isso eu não quero para a minha vida, e a Kaká trouxe. Mas, eu sou o único que tenho a capacidade de afastar isso de mim, e estou conversando com você porque quero desabafar e não quero ver nenhum dos meus colegas transformando a escola no Pior Lugar do Mundo porque simplesmente alguém não quer ter sucesso na vida. A duras custas eu percebi que há pessoas que edificam, como a Bella faz com o meu primo e há pessoas que destroem como a Kaká fez comigo. Mas tudo passa pela minha escolha. Eu não posso deixar de ser quem eu sou para agradar os outros. Preciso manter meu foco na minha vida, pois sou muito jovem e preciso me preparar para o Enem, porque tinha até esquecido que o caminho que tracei incluía ser Engenheiro Civil. Esse meu caminho é reto e paralelo e ele só pode chegar até mim se eu estudar e buscar bastante. Tenho que perceber o exemplo da Bella e segui-lo. Esse é um caminho bom, de quem vai ter sucesso. E agora meu amigo, para mim é somente a hora de recomeçar e fazer tudo na minha vida ser uma linha reta e paralela, sou jovem e o que mais posso fazer é recomeçar e do jeito certo agora.

Autor Prof. Hedilberto Apolinário

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