As dificuldades…Setembro AMARELO, observe as pessoas e dê atenção a quem sofre pelos cantos. Prof. Hedilberto Apolinário da Silva.
As dificuldades…
As vezes não nos vemos com estamos.
Esquecemos que o mundo é grande e que tudo pode ser difícil. São tantas opções
que não se sabe para onde se quer ir. Assim, a gente deixa simplesmente as
coisas acontecerem e ficamos sem pensar em nada.
O nada é o problema de muita gente.
Por não está pensando em nada e não criar direção para as coisas que a gente
viverá no futuro, simplesmente nos concentramos na Internet, no mais fundo de
nossos quartos e entramos em um mundo apenas virtual. Não vemos o tempo do
relógio passar. A tela passa a ser a sua vida e você acaba esquecendo as caras
das pessoas. Porque elas dentro da tela são tão diferentes. São felizes e tem
sempre uma vida boa e um semblante despreocupado. É assim que eu as vejo no meu
aplicativo. Tão felizes! E eu aqui, sem nada para pensar, dentro da minha casa
feia, quente e ainda com gente me criticando e reclamando de mim todos os dias.
Sinto-me perdido dentro do nada que
eu mesmo criei. Saio de casa e encontrando um mundo chato. Cheio de lugares que
nada me interessam e em nada me trazem felicidade. E nesses lugares só tem
adultos que passam o dia me cobrando. Solicitando que eu faça tarefas e as
repita feito louco. Eu me abuso de tantas e tantas cobranças e de tanto e tanto
futuro. Pois agora eu, na verdade, quero apenas é ser feliz. Eu quero é ser
esquecido e ficar dentro do meu quarto. Trancado e acomodado com o meu nada e
com os meus fantasmas medonhos. Eu só quero isso porque lá no meu quarto eu me
alimento da felicidade dos meus amigos.
Na tela do meu celular passa toda a
felicidade do mundo. Pessoas lindas, momentos perfeitos, histórias de amor
maravilhosas e cheias de aventura. E eu simplesmente não posso fazer nada!
Simplesmente só posso ver as coisas deslizando nos meus dedos. Ah! quanta
vontade de viver aquilo tudo que eu vejo. Mas não posso, estou fechado aqui
nesse quarto escuro, quente e ainda tem gente me cobrando. Sai de mim vida ruim
eu não te quero mais! Quanta coisa ruim e chata ao meu redor.
Não quero mais me arrumar, não tenho
motivo, pois a vida que eu quero está dentro da tela e tudo aqui fora está sem
caminho e sem rumo. Esse mundo aqui de fora é chato. Fico querendo apenas a
gana da tela, como estou apaixonado por esse mundo virtual, que para mim é tão
sensível. É super real! Eu o sinto e o vejo, sinto tudo quando estou dentro
dele. Nada mais me incomoda. Não escuto esse mundo externo no qual vivo preso.
E os dias foram passando e percebi
que na medida em que se passavam, cada vez menos pessoas me comprimentavam
quando eu estava nesse tal mundo real. As pessoas de verdade estavam se
afastando de mim, mesmo que eu procurasse sua presença por apenas alguns
instantes. Talvez nesse momento eu quisesse sentir menos o cheiro do plástico e
sentir mais como era o cheiro de outra pessoa como eu. Faço isso vez por outra,
porque a tela não tem cheiro e para eu vivê-la, eu simplesmente deixo de
existir aqui onde estou. Talvez seja por isso que as pessoas não me percebem
mais aqui nesse mundo real. Assim quando caminho, por toda a parte e na direção
que eu sigo as pessoas se distanciam de mim. E isso começa a me causar dores e
as dores ocorrem quando estou dentro desse tal mundo real.
Certo dia acordo e percebo que
ninguém mais sente a minha falta. Em casa, a minha família não me procura, nem
perguntam como eu estou. Se eu comer algo como desjejum ou não comer é uma
coisa irrelevante na minha casa. Saio caminhando na rua e ninguém me olha. Na
escola, tudo parece acontecer e eu sou apenas o expectador, que os colegas
chamam de “celular”. Ninguém se dirige a mim. Sou tão imperceptível que na hora
da chamada quando o professor fala o meu nome as pessoas é quem respondem por
mim e dizem: “é o celular professor, ele está ali no canto.”. E eu no meu
silêncio, levanto apenas os olhos e vejo o professor e após esse momento eu
retorno meus olhos para a tela. Voltando a não ver mais nada e mais ninguém,
tudo é a tela e a felicidade que ela estampa. São festa a mil, muitas baladas,
gente bonita se beijando e se curtindo as pessoas aparecem se tocando, com
vários sorrisos. São inúmeros “selfies” em vários lugare e com várias curtidas.
São coisas tão legais que até já tentei copiar as fotos dos outros no meu
perfil, mas não deu certo. As pessoas não me entenderam e simplesmente me
denunciavam e as curtidas eram retiradas da minha página e até algumas vezes
minha conta foi fechada e eu tivera que abrir outra. Que mundo real terrível,
ele me bloqueia nos instantes de felicidade que consigo construir.
A cada dia estava mais isolado de
tudo e de todos. E assim meio que de repente comecei a sentir uma dor dentro de
mim. Fiquei preocupado e comecei a me observar no espelho de casa e não vi
nenhum machucado, mas a cada dia a dor aumentava. Essa dor era como se uma faca
fosse entrando no meu corpo. Apertando o meu coração e meu peito, tirando
pedaços pouco a pouco a cada hora do dia. E para sentir menos essa dor eu
preferia ficar sentado, no chão mesmo, meio que de cócoras e com a cabeça entre
os joelhos. Vez por outra escorria uma lágrima no canto do meu olho. E eu não
sabia explicar o motivo da lágrima, pois a dor não tinha explicação.
A dor começou a tomar conta de mim
de tal modo que nem sequer a tela do celular conseguia mais aliviar a dor que
eu sentia. Assim comecei a pensar em acabar com tudo o que estava errado. E
pensando em: o que estava errado. Só achei a mim mesmo como errado em minha
solidão. Comecei então a imaginar o mundo onde eu não existisse e comecei a
analisar que as pessoas não sentiriam falta de mim. Já que na escola eu sou “O
celular” e em casa eu era uma sombra que caminhava do quarto fedido pelos
cantos para se alimentar vez por outra. Então em meu pensamento comecei a
tramar o meu sumiço do mundo como uma cena trágica de Shakespeare, e tudo
aconteceria dentro da escola e creio que pela primeira vez eu seria o Hamlet na
peça da vida real na escola, pois na vida virtual já não mais existia.
Tudo pronto para a minha encenação,
e eu estava sentado no canto da parede do corredor da escola, já tinha escrito
uma carta de despedida para minha família. E me encontrava lá, parado e inerte.
Vez por outra levantando a cabeça, com os olhos chocados e meio lacrimejados.
Eu estava realmente com medo. Penso que o Hamlet nunca teve medo. Mas, eu
tenho! E fiquei naquele canto, onde as pessoas passavam e me olhavam e eu só
levantando e baixando a vista e tudo acontecendo e a coragem chegando e a dor
que não tinha origem aumentando e tudo acontecendo e quando eu já estava
pronto, vou me levantar e começar o meu ato. Vou agora me atirar do segundo
andar da escola até o pátio com um sonoro grito de liberdade. Vou me levantar e
vai ser agora! Espere, vem alguém em minha direção, é uma garota. Mas, ninguém
fala comigo a muito tempo. Ela está sorrindo e continua olhando para mim. Ela
está na minha frente!!!
-
Olá garoto, tudo bem?
Fiquei sem
palavras, e não respondi nada. E a garota volta a falar comigo.
-
Olá garoto, tudo bem?
-
Não! não está!
-
Você está tão triste aí, você quer desabafar?
Foi a primeira
vez que isso aconteceu comigo, e aquele sorriso que queria falar comigo de
verdade conseguiu imediatamente aliviar a dor que eu estava sentindo no meu
coração. Aquele “Olá garoto, Tudo bem?” foi uma luz que rompeu a escuridão que
estava no meu coração. Naquela hora todos os planos de tragédia foram deixados
de lado e aquele desabafo onde eu mais escutei do que falei me mostrou que a
luz existe e está nas pessoas. E assim comecei a enxergar as pessoas e percebi
que eu era a única pessoa que não via que alguém estava se preocupando comigo e
que toda vez que tentava se aproximar eu afastava as pessoas de mim usando a
tela do meu celular. Era eu que dedicava minha vida a virtualidade do celular e
esqueci das pessoas de verdade. E agora estou buscando ajuda das pessoas para
me livrar do vício que ia me matar da depressão causado pelo uso excessivo do
meu celular.(deste aparelho frio e estático que é o celular.)
Setembro AMARELO, observe as pessoas e dê atenção a quem sofre
pelos cantos.
Prof. Hedilberto Apolinário da Silva.
poesia do começo ao fim. belíssimo!
ResponderExcluir👏👏👏👏
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